Às vezes vale a pena deixar o tempo amadurecer as ideias e mais tarde voltar a elas e destrinçar as podres e as que enraízam para sempre.
Houve um político inglês que ao ser questionado como tinham
conseguido implementar e manter a Democracia no país, deu a receita da relva: “É
igual – prepara-se o terreno, semeia-se a relva, rega-se, apara-se e depois
deixam-se passar os séculos.”
Hoje só deixei passar meio século sobre o livro “Revolução
Necessária”, de José Gomes Ferreira e por lá cato ideias, imagens,
factos velhos que posso cotejar com factos hodiernos.
Vivia-se um tempo entre dois medos – o do regresso aos 48
anos de obscurantismo, de mordaças, de torturas, de despotismo e de ocultação
da verdade e o medo do futuro – “que monstros desconhecidos nos sairiam um dia
das sargetas e dos esgotos?”
Então e sempre “o sistema”.
Recorro às palavras de J. Gomes Ferreira que descobrira
coisas quase religiosas na TV. Não sobre o José Régio que se afoitara a dizer
que não acreditava no inferno e logo um jornal da província lhe caiu em cima -
era lá possível um poeta querer suprimir o inferno - mas sim, sobre gentes do
dinheiro. «… de repente vi aparecer no quadrilátero mágico quatro industriais
que começaram a confessar em voz nítida, diante do mundo, que, para ganharem
mais dinheiro, haviam recorrido ao suborno e as outras arteirices indignas.
Pecadilhos que, por certo, exageraram, até e para dar mais ênfase às culpas que
atribuíam ao sistema em que o destino os forçara a viver. Mas não voltariam a
cometer crimes idênticos. Ali o juravam solenemente diante do universo. “Tinham
feito o seu 25 de Abril” e assinado um documento em que se comprometiam a não
reincidir em falcatruas. Vejam! Vejam” (e mostravam um papel, felizes).»
Vejam os nossos políticos, nos debates, a mostrar sempre o papel…
Vejam! Vejam! Não fui eu, foi ele… foi ele…
Não vejam, ouçam antes o Zé Mário. Menina dos meus olhos