domingo, 15 de fevereiro de 2026

Quem foi o Caires?

Conheci bem uma rua de entrada em Braga para quem ia do Porto, no tempo em que não havia auto-estrada - era a Rua do Caires. Sim, é do Caires e não de Caires. Mas afinal quem foi esse ilustre personagem que deu nome à rua?

Rezam as crónicas que foi Joaquim Machado Caires. Em 1827, nasceu por ali perto, em S. Pedro de Maximinos e foi abanar a árvores das patacas para o Brasil.

Muito bem-sucedido, resolveu aplicar a fortuna no imobiliário lisboeta e para além de várias aquisições mandou fazer um palacete, para residência própria, nem mais nem menos do que o imóvel que é hoje o Palacete de S. Bento, residência oficial do Primeiro Ministro, situado na rua da Imprensa, à Estrela. Corria o ano de 1877 e muita verdura ainda havia por ali, o espaço envolvente era amplo e integrava uma cerca com mais de dois hectares ligada ao Convento de S. Bento, fundado em 1598. Precisamente o convento onde hoje se encontra o Palácio de S. Bento, casa mãe do Parlamento.

Voltando ao Palacete, já após a morte de Machado Caires, o edifício foi vendido, em 1934, a umas religiosas espanholas, que poucos anos lá estiveram. Em 1937, Oliveira Salazar sofre um atentado à bomba do qual sai ileso, mas à cautela, também mudou de residência. Mandou expropriar precisamente o Palacete de S. Bento e aí estabeleceu a sua residência oficial. Até hoje, o Palacete ficou para morada dos primeiros-ministros.

Regressemos a Braga, agora para “abrir” o fabuloso testamento de Machado Caires e descobrir quanta beneficência não foi espalhada pela família, pelos bracarenses e até por lisboetas.

Faleceu a 1 de Novembro de 1886. No dia 6 desse mês, o Jornal de Braga – O Constituinte – faz notícia de «O testamento do falecido Commendador Joaquim Machado Caires». Aí declara ter casado com uma dona Guilhermina, natural da Bahia, que dispôs da terça de todos os bens do casal. Deixou propriedades à irmã D. Maria Rita, bem como acções do Banco de Lisboa & Açores. O usufruto de casas e terrenos em Lisboa, na Calçada da Estrela, foi dado a um sobrinho, bem como acções da banca. Outros familiares não foram esquecidos. A Câmara Municipal de Braga e o Hospital de S. Marcos receberam o Passal de Maximinos, que ia desde a igreja de S. Pedro de Maximinos até ao sítio onde hoje   está a estação ferroviária, devendo a Câmara aí construir uma escola primária para o sexo feminino e tudo o que fosse preciso (teve biblioteca e Casa do Professor). Nesse terreno, deveria abrir uma rua (E ABRIU - a dita Rua do Caires, por onde comecei) e vender o resto dos terrenos.

A Câmara de Lisboa não ficou atrás. Deixou-lhe terreno da extinta Cerca de S. Bento, «…tanto quanto seja preciso para mandar abrir duas ruas de 12 metros de largura». Não sei se a Câmara as abriu, mas não deu o nome dele a nenhuma.

Os pobres da freguesia de S. Pedro de Maximinos, em Braga e da Freguesia de S. Isabel, em Lisboa – 50 famílias – foram contempladas com quantias em dinheiro.

Um amigo herdou um relógio de ouro, outro uns botões de brilhantes para o peitilho da camisa, enfim um nunca acabar de benesses.

Bem haja que assim distribuiu a fortuna.


sexta-feira, 9 de janeiro de 2026

Leituras do “fresco pós-25 de Abril”

 Às vezes vale a pena deixar o tempo amadurecer as ideias e mais tarde voltar a elas e destrinçar as podres e as que enraízam para sempre.

Houve um político inglês que ao ser questionado como tinham conseguido implementar e manter a Democracia no país, deu a receita da relva: “É igual – prepara-se o terreno, semeia-se a relva, rega-se, apara-se e depois deixam-se passar os séculos.

Hoje só deixei passar meio século sobre o livro “Revolução Necessária”, de José Gomes Ferreira e por lá cato ideias, imagens, factos velhos que posso cotejar com factos hodiernos.

Vivia-se um tempo entre dois medos – o do regresso aos 48 anos de obscurantismo, de mordaças, de torturas, de despotismo e de ocultação da verdade e o medo do futuro – “que monstros desconhecidos nos sairiam um dia das sargetas e dos esgotos?”

Então e sempre “o sistema”.

Recorro às palavras de J. Gomes Ferreira que descobrira coisas quase religiosas na TV. Não sobre o José Régio que se afoitara a dizer que não acreditava no inferno e logo um jornal da província lhe caiu em cima - era lá possível um poeta querer suprimir o inferno - mas sim, sobre gentes do dinheiro. «… de repente vi aparecer no quadrilátero mágico quatro industriais que começaram a confessar em voz nítida, diante do mundo, que, para ganharem mais dinheiro, haviam recorrido ao suborno e as outras arteirices indignas. Pecadilhos que, por certo, exageraram, até e para dar mais ênfase às culpas que atribuíam ao sistema em que o destino os forçara a viver. Mas não voltariam a cometer crimes idênticos. Ali o juravam solenemente diante do universo. “Tinham feito o seu 25 de Abril” e assinado um documento em que se comprometiam a não reincidir em falcatruas. Vejam! Vejam” (e mostravam um papel, felizes).»

Vejam os nossos políticos, nos debates, a mostrar sempre o papel… Vejam! Vejam! Não fui eu, foi ele… foi ele…

Não vejam, ouçam antes o Zé Mário. Menina dos meus olhos