sexta-feira, 9 de janeiro de 2026

Leituras do “fresco pós-25 de Abril”

 Às vezes vale a pena deixar o tempo amadurecer as ideias e mais tarde voltar a elas e destrinçar as podres e as que enraízam para sempre.

Houve um político inglês que ao ser questionado como tinham conseguido implementar e manter a Democracia no país, deu a receita da relva: “É igual – prepara-se o terreno, semeia-se a relva, rega-se, apara-se e depois deixam-se passar os séculos.

Hoje só deixei passar meio século sobre o livro “Revolução Necessária”, de José Gomes Ferreira e por lá cato ideias, imagens, factos velhos que posso cotejar com factos hodiernos.

Vivia-se um tempo entre dois medos – o do regresso aos 48 anos de obscurantismo, de mordaças, de torturas, de despotismo e de ocultação da verdade e o medo do futuro – “que monstros desconhecidos nos sairiam um dia das sargetas e dos esgotos?”

Então e sempre “o sistema”.

Recorro às palavras de J. Gomes Ferreira que descobrira coisas quase religiosas na TV. Não sobre o José Régio que se afoitara a dizer que não acreditava no inferno e logo um jornal da província lhe caiu em cima - era lá possível um poeta querer suprimir o inferno - mas sim, sobre gentes do dinheiro. «… de repente vi aparecer no quadrilátero mágico quatro industriais que começaram a confessar em voz nítida, diante do mundo, que, para ganharem mais dinheiro, haviam recorrido ao suborno e as outras arteirices indignas. Pecadilhos que, por certo, exageraram, até e para dar mais ênfase às culpas que atribuíam ao sistema em que o destino os forçara a viver. Mas não voltariam a cometer crimes idênticos. Ali o juravam solenemente diante do universo. “Tinham feito o seu 25 de Abril” e assinado um documento em que se comprometiam a não reincidir em falcatruas. Vejam! Vejam” (e mostravam um papel, felizes).»

Vejam os nossos políticos, nos debates, a mostrar sempre o papel… Vejam! Vejam! Não fui eu, foi ele… foi ele…

Não vejam, ouçam antes o Zé Mário. Menina dos meus olhos