Dos cronistas oficiais do Reino à vox populi que efabulou histórias lendárias, a origem do ápodo “tripeiros” perde-se no tempo.
Comece-se pela desambiguação do termo “portista”, que alguns
usam para nos nomear, cujo sufixo “ista” nos remete apenas para o adepto dos
desportos do clube maior cá da cidade.
“Ser tripeiro” é um orgulho portuense porque as histórias
que sempre nos contaram enalteceram os actos dos nossos antepassados avós.
Perguntava Magalhães Basto «…. A alcunha de tripeiros provirá da fama
das nossas tripas (salvo seja)?». Muito boa gente disse que tripeiros eram os
naturais do Porto, especialmente os da freguesia da Sé. Estes consideravam-se
os “tripeiros de gema”. Os das freguesias circundantes teriam de
contentar-se em ser “tripeiros de clara”.
Podemos ser tripeiros, pelo simples facto de apreciarmos as
nossas únicas “Tripas à moda do Porto”. Deixemos a gastronomia, porque
isso de ser tripeiro por comer tripas também o poderiam ser os de outras
terras. Sampaio Bruno diz que comeu “Tripes à la mode de Caen” em Paris,
depois da Revolta do 31 de Janeiro. Ramalho diz que também as comeu numa
esquina das ruas Mazagran e de l’Echiquier, na mesma capital. Os “callos
gallegos” continuam a ser especialidade dos nossos vizinhos… mas o melhor é
voltarmo-nos para a história.
Parece que há mais de sete séculos, os alfacinhas já diziam
«Lá vêm os nossos tripeiros!» Por que seria?
Tempos de crise… como sempre propícios para os
aproveitadores, imortalizados nos escritos. Fernão Lopes, na Crónica de D. João
narra-nos o seguinte:
«[…] as tribullaçoões que Lixboa padecia per mingua de
mantimentos durante o Cerco de Lixboa de 1384. Como havia grande
multidão de gentes acolhidas na cidade e escassez de alimentos, os decisores de
então «estabelleçerom deitar fora as gemtes minguadas e nom pertençemtes para
deffenssom», ou seja foram expulsos da cidade todos os que não a
defendiam, entre eles «mancebas mundairas (meretrizes) e
judeus.»
Os factos históricos da época estão profusamente
documentados e por nós estudados sobre a crise de 1383-1385. D. Fernando morreu
sem deixar filho varão. Desencadeiam-se lutas pela sucessão ao trono e D. João,
rei de Castela, que havia casado com D. Beatriz, filha do nosso falecido rei, fica à espera. O
povo até preferia ver no trono um filho ilegítimo de D. Pedro I, o D. João, Mestre
de Avis, do que o D. João, castelhano. Mas este achou que estava na hora de
invadir o nosso território e formar uma só Ibéria. Atacou as três cidades
principais – Porto, Coimbra e Lisboa. Cá pela cidade, as tropas castelhanas foram
rapidamente sacudidas, mas Lisboa foi cercada por alguns meses e alastrou-se a
peste e a fome.
Um escritor portuense, António Coelho Lousada, ainda
publicou antes de morrer, em 1859, uma obra histórica que intitulou “Os
Tripeiros – romance chronica do século XIV”. Pelo meio das aventuras de uns
pares aventurosos, relata-nos a entrada no Porto de uma comitiva chefiada por
Rui Pereira, um tio do condestável Nuno Alvares Pereira, que vinha ao Porto
pedir auxílio – mantimentos e homens para libertar a cidade e matar a fome ao povo.
«O Mestre de Avis prometia mil regalias aos bons burgueses do Porto se estes
acudissem ao cerco, com mantimentos e com um reforço de navios para impedir que
o Tejo fosse bloqueado.»
E assim foi, os castelhanos foram vencidos na batalha no estuário rio
Tejo e os lisboetas não morreram à fome – carne da fêvera para os mais
abastados e as tripas para o povo.
Magalhães Basto colheu uma curiosa descrição numa carta que
Cerqueira Pinto enviou à Academia Real de Lisboa em 1721, onde se lê: «A
pedido do Mestre, o Porto enviou “fustes”, como caravelas um pouco maiores, com
carnes de vaca para o comestível […] e para sustento do povo comum de Lisboa,
ordenaram os portuenses mandar os tais miúdos concertados em pipas, nas mesmas
embarcações, para poder abranger e remediar as necessidades que naquele cerco
experimentava o povo.»
Escreve ainda que “estando o povo pelas atalaias
vigiando e quando viam vir as tais embarcações o celebravam com alegria,
dizendo «Lá vêm os nossos tripeiros».
Afinal as
nossas tripas mataram a fome aos alfacinhas.
Por outro lado, há um monumento no Porto, que alguns
designam como “Monumento ao Tripeiro” e o seu autor Lagoa Henriques intitulou-o
apenas como “À Grei”. Esculpiu-o
para a comemoração dos 500 anos da morte do Infante D. Henrique, em 1960. A obra
é um agradecimento aos homens dos estaleiros navais e aos habitantes da cidade
que construíram, deram provisões e tripularam a primeira armada do Infante, ou
seja, agradece-se à grei. E um animal esventrado também mereceu imortalidade no bronze.
Lagoa Henriques, autor também da célebre estátua de Fernando
Pessoa no Chiado, talvez já tivesse um estudo para esta estátua do Porto. Pelo
menos, andou-lhe na cabeça, em 1958, quando aluno e professor na Escola de
Belas Artes do Porto, colega de Alcino Soutinho e Álvaro Siza Vieira.
Apresentou com eles um projecto de monumento “Aos Calafates”, na I Exposição
Extra-Escolar dos Alunos da ESBAP do Porto, que nunca chegou a ser construído.
Se visitarmos o monumento podemos lá ler “À GREI que lhe deu navios e provisões e nela embarcou”.
Verificamos também que esta evocação se refere a um acontecimento ocorrido 30
anos após a crise do cerco de Lisboa – a preparação no Porto da frota do
Infante D. Henrique para a conquista de Ceuta. Mais uma vez, vamos deparar com
efabulações e factos históricos.
O historiador Joel Cleto classifica como lenda a “estória
das tripas” na origem do ápodo “tripeiros” – as tripas foi o que restou ao
povo portuense depois de enviar toda a carne para as campanhas marítimas em África.
Os cronistas do Reino, lembram o afecto do Porto ao Infante .
«A gente do Porto, com mãos largas dá-lhe tudo, porque o considera um dos
seus. Galés, barinéis, naus, barcas e fustes saíram dos barracões dos estaleiros
de Miragaia e do Ouro. Pelas terras úberes da Maia e de Gaia, ajustam-se as provisões
de que a frota precisa. Os vinhos, capitosos e fortes, vinham das terras de
Riba-Douro. As viandas, limpas, eram salgadas e acamadas. As miudezas (tripas)
ficavam.»
Segundo estes, somos tripeiros porque ficamos só com as
tripas. Ou será porque com elas conseguimos fazer o melhor prato do mundo?
Foto: gisaweb.cm-porto