quarta-feira, 26 de novembro de 2025

TRIPEIROS – afinal comemos nós as tripas ou démo-las aos alfacinhas?

 Dos cronistas oficiais do Reino à vox populi que efabulou histórias lendárias, a origem do ápodo “tripeiros” perde-se no tempo.

Comece-se pela desambiguação do termo “portista”, que alguns usam para nos nomear, cujo sufixo “ista” nos remete apenas para o adepto dos desportos do clube maior cá da cidade.

“Ser tripeiro” é um orgulho portuense porque as histórias que sempre nos contaram enalteceram os actos dos nossos antepassados avós.
Perguntava Magalhães Basto «…. A alcunha de tripeiros provirá da fama das nossas tripas (salvo seja)?». Muito boa gente disse que tripeiros eram os naturais do Porto, especialmente os da freguesia da Sé. Estes consideravam-se os “tripeiros de gema”. Os das freguesias circundantes teriam de contentar-se em ser “tripeiros de clara”.

Podemos ser tripeiros, pelo simples facto de apreciarmos as nossas únicas “Tripas à moda do Porto”. Deixemos a gastronomia, porque isso de ser tripeiro por comer tripas também o poderiam ser os de outras terras. Sampaio Bruno diz que comeu “Tripes à la mode de Caen” em Paris, depois da Revolta do 31 de Janeiro. Ramalho diz que também as comeu numa esquina das ruas Mazagran e de l’Echiquier, na mesma capital. Os “callos gallegos” continuam a ser especialidade dos nossos vizinhos… mas o melhor é voltarmo-nos para a história.

Parece que há mais de sete séculos, os alfacinhas já diziam «Lá vêm os nossos tripeiros!» Por que seria?

Tempos de crise… como sempre propícios para os aproveitadores, imortalizados nos escritos. Fernão Lopes, na Crónica de D. João narra-nos o seguinte:

«[…] as tribullaçoões que Lixboa padecia per mingua de mantimentos durante o Cerco de Lixboa de 1384. Como havia grande multidão de gentes acolhidas na cidade e escassez de alimentos, os decisores de então «estabelleçerom deitar fora as gemtes minguadas e nom pertençemtes para deffenssom», ou seja foram expulsos da cidade todos os que não a defendiam, entre eles «mancebas mundairas (meretrizes) e judeus.»

Os factos históricos da época estão profusamente documentados e por nós estudados sobre a crise de 1383-1385. D. Fernando morreu sem deixar filho varão. Desencadeiam-se lutas pela sucessão ao trono e D. João, rei de Castela, que havia casado com D. Beatriz, filha do nosso falecido rei, fica à espera. O povo até preferia ver no trono um filho ilegítimo de D. Pedro I, o D. João, Mestre de Avis, do que o D. João, castelhano. Mas este achou que estava na hora de invadir o nosso território e formar uma só Ibéria. Atacou as três cidades principais – Porto, Coimbra e Lisboa. Cá pela cidade, as tropas castelhanas foram rapidamente sacudidas, mas Lisboa foi cercada por alguns meses e alastrou-se a peste e a fome.

Um escritor portuense, António Coelho Lousada, ainda publicou antes de morrer, em 1859, uma obra histórica que intitulou “Os Tripeiros – romance chronica do século XIV”. Pelo meio das aventuras de uns pares aventurosos, relata-nos a entrada no Porto de uma comitiva chefiada por Rui Pereira, um tio do condestável Nuno Alvares Pereira, que vinha ao Porto pedir auxílio – mantimentos e homens para libertar a cidade e matar a fome ao povo. «O Mestre de Avis prometia mil regalias aos bons burgueses do Porto se estes acudissem ao cerco, com mantimentos e com um reforço de navios para impedir que o Tejo fosse bloqueado

E assim foi, os castelhanos foram vencidos na batalha no estuário rio Tejo e os lisboetas não morreram à fome – carne da fêvera para os mais abastados e as tripas para o povo.

Magalhães Basto colheu uma curiosa descrição numa carta que Cerqueira Pinto enviou à Academia Real de Lisboa em 1721, onde se lê: «A pedido do Mestre, o Porto enviou “fustes”, como caravelas um pouco maiores, com carnes de vaca para o comestível […] e para sustento do povo comum de Lisboa, ordenaram os portuenses mandar os tais miúdos concertados em pipas, nas mesmas embarcações, para poder abranger e remediar as necessidades que naquele cerco experimentava o povo.»

Escreve ainda que “estando o povo pelas atalaias vigiando e quando viam vir as tais embarcações o celebravam com alegria, dizendo «Lá vêm os nossos tripeiros».

 Afinal as nossas tripas mataram a fome aos alfacinhas.

Por outro lado, há um monumento no Porto, que alguns designam como “Monumento ao Tripeiro” e o seu autor Lagoa Henriques intitulou-o apenas como “À Grei”.  Esculpiu-o para a comemoração dos 500 anos da morte do Infante D. Henrique, em 1960. A obra é um agradecimento aos homens dos estaleiros navais e aos habitantes da cidade que construíram, deram provisões e tripularam a primeira armada do Infante, ou seja, agradece-se à grei. E um animal esventrado também mereceu imortalidade no bronze.

Lagoa Henriques, autor também da célebre estátua de Fernando Pessoa no Chiado, talvez já tivesse um estudo para esta estátua do Porto. Pelo menos, andou-lhe na cabeça, em 1958, quando aluno e professor na Escola de Belas Artes do Porto, colega de Alcino Soutinho e Álvaro Siza Vieira. Apresentou com eles um projecto de monumento “Aos Calafates”, na I Exposição Extra-Escolar dos Alunos da ESBAP do Porto, que nunca chegou a ser construído.

Se visitarmos o monumento podemos lá ler “À GREI que lhe deu navios e provisões e nela embarcou”. Verificamos também que esta evocação se refere a um acontecimento ocorrido 30 anos após a crise do cerco de Lisboa – a preparação no Porto da frota do Infante D. Henrique para a conquista de Ceuta. Mais uma vez, vamos deparar com efabulações e factos históricos.

O historiador Joel Cleto classifica como lenda a “estória das tripas” na origem do ápodo “tripeiros” – as tripas foi o que restou ao povo portuense depois de enviar toda a carne para as campanhas marítimas em África.

Os cronistas do Reino, lembram o afecto do Porto ao Infante . «A gente do Porto, com mãos largas dá-lhe tudo, porque o considera um dos seus. Galés, barinéis, naus, barcas e fustes saíram dos barracões dos estaleiros de Miragaia e do Ouro. Pelas terras úberes da Maia e de Gaia, ajustam-se as provisões de que a frota precisa. Os vinhos, capitosos e fortes, vinham das terras de Riba-Douro. As viandas, limpas, eram salgadas e acamadas. As miudezas (tripas) ficavam.»

Segundo estes, somos tripeiros porque ficamos só com as tripas. Ou será porque com elas conseguimos fazer o melhor prato do mundo?

Foto: gisaweb.cm-porto


quarta-feira, 5 de novembro de 2025

A incúria da edição livreira

 

Longe vão os tempos em que folheávamos um livro novo e deparávamos logo com uma tira de papel de seda – CORRIGENDA ou ERRATA – no início ou no fim do livro. Por muito bons que fossem os olhos dos revisores havia sempre uma gralha ou uma translineacção mal feita que passava, mas que iria ser corrigida, mesmo depois do livro sair do prelo, na tal tirinha colada.

A minha indignação de hoje baseia-se no último livro que requisitei na Biblioteca Municipal cá do burgo. Fiquei contente por ver lá uma re-edição do livro “Os Tripeiros” de Lousada Coelho. Já lera o livro, que caíu em domínio público e está disponível na Internet, mas poder folheá-lo dar-me-ia um prazer diferente. Quando o trouxe nem reparei em pormenores, só me congratulava por ter nas mãos uma edição em papel de “Os Tripeiros”.

As primeiras impressões eram boas. Tinha havido a intenção de re-editar livros do século XIX, há muito esgotados no mercado, neste caso, ainda fiquei mais impressionado porque figurava na capa cartonada, como editora a “Associação dos Jornalistas e Homens de Letras do Porto”. Nas guardas surge uma fotografia do Porto, com efeito vintage azulado e vejo que ainda tem notas e prefácio de José Viale Moutinho, cujos textos li muitas vezes no JN. Tudo boas indicações…

Aprecio a capa e atento no sub-título “Romance-crónica do século XVI”. Huh, isto está dois séculos adiantado. Será que foi gralha? Aqui trocam os “Vês” ou não sabiam a numeração romana? Volto o livro, na contracapa, no texto de apresentação repete-se – “Os Tripeiros, romance-crónica do século XVI” Mau… Vou dentro à folha de rosto, repete-se a graça e para maior espanto o tomo que tenho nas mãos já é a 2.ª edição. Volto a página, na informação bibliográfica para catalogação, a brincadeira repete-se “… século XVI”  - Colecção Porto, Porto/1 (Novembro de 2019). Ofereça-se a estes senhores uma edição fac-similada de 1857, onde na folha de rosto está bem grafado “ROMANCE-CHRONICA DO SÉCULO XIV”.

Se isto fosse uma moeda, tinha nas mãos um exemplar valioso, pela sua raridade, mas como é um livro ninguém liga aos erros. Não é exemplar único e até está registado na Biblioteca Nacional de Portugal.

Bem, o interior é que me interessa e vamos lá mergulhar na leitura. Tive logo vontade de fazer de revisor, na primeira página do prefácio:

“Nascido no Porto a 4 de Novembro de 1828, António José Coelho Lousada na sua cidade morreu, a 23 de Julho de 1849, seja com pouco mais de 30 anos de idade.”

Dou de barato a estrutura frásica, mas de 28 a 49 não vão 30 anos. Na verdade, ele faleceu em 1859. A folhas seguintes, a amada de Coelho Lousada, Maria Emília Braga, aparece referenciada como irmã dos escritores “Alexandre e Guilherme Gama”, em vez de Braga, Gama era o amigo Arnaldo Gama que nos diz que “matou-o uma hematúria crudelíssima” que passa a “hematura” em página seguinte e Coelho Lousada não resistiu ao último mês, “declarou-se-lhe uma anasarca”.

Não resistiu, assim como eu não resisto à falta de correctores, assim escrito, para corrigir gralhas, ‘faltas, pecados e omissões’.