quarta-feira, 5 de novembro de 2025

A incúria da edição livreira

 

Longe vão os tempos em que folheávamos um livro novo e deparávamos logo com uma tira de papel de seda – CORRIGENDA ou ERRATA – no início ou no fim do livro. Por muito bons que fossem os olhos dos revisores havia sempre uma gralha ou uma translineacção mal feita que passava, mas que iria ser corrigida, mesmo depois do livro sair do prelo, na tal tirinha colada.

A minha indignação de hoje baseia-se no último livro que requisitei na Biblioteca Municipal cá do burgo. Fiquei contente por ver lá uma re-edição do livro “Os Tripeiros” de Lousada Coelho. Já lera o livro, que caíu em domínio público e está disponível na Internet, mas poder folheá-lo dar-me-ia um prazer diferente. Quando o trouxe nem reparei em pormenores, só me congratulava por ter nas mãos uma edição em papel de “Os Tripeiros”.

As primeiras impressões eram boas. Tinha havido a intenção de re-editar livros do século XIX, há muito esgotados no mercado, neste caso, ainda fiquei mais impressionado porque figurava na capa cartonada, como editora a “Associação dos Jornalistas e Homens de Letras do Porto”. Nas guardas surge uma fotografia do Porto, com efeito vintage azulado e vejo que ainda tem notas e prefácio de José Viale Moutinho, cujos textos li muitas vezes no JN. Tudo boas indicações…

Aprecio a capa e atento no sub-título “Romance-crónica do século XVI”. Huh, isto está dois séculos adiantado. Será que foi gralha? Aqui trocam os “Vês” ou não sabiam a numeração romana? Volto o livro, na contracapa, no texto de apresentação repete-se – “Os Tripeiros, romance-crónica do século XVI” Mau… Vou dentro à folha de rosto, repete-se a graça e para maior espanto o tomo que tenho nas mãos já é a 2.ª edição. Volto a página, na informação bibliográfica para catalogação, a brincadeira repete-se “… século XVI”  - Colecção Porto, Porto/1 (Novembro de 2019). Ofereça-se a estes senhores uma edição fac-similada de 1857, onde na folha de rosto está bem grafado “ROMANCE-CHRONICA DO SÉCULO XIV”.

Se isto fosse uma moeda, tinha nas mãos um exemplar valioso, pela sua raridade, mas como é um livro ninguém liga aos erros. Não é exemplar único e até está registado na Biblioteca Nacional de Portugal.

Bem, o interior é que me interessa e vamos lá mergulhar na leitura. Tive logo vontade de fazer de revisor, na primeira página do prefácio:

“Nascido no Porto a 4 de Novembro de 1828, António José Coelho Lousada na sua cidade morreu, a 23 de Julho de 1849, seja com pouco mais de 30 anos de idade.”

Dou de barato a estrutura frásica, mas de 28 a 49 não vão 30 anos. Na verdade, ele faleceu em 1859. A folhas seguintes, a amada de Coelho Lousada, Maria Emília Braga, aparece referenciada como irmã dos escritores “Alexandre e Guilherme Gama”, em vez de Braga, Gama era o amigo Arnaldo Gama que nos diz que “matou-o uma hematúria crudelíssima” que passa a “hematura” em página seguinte e Coelho Lousada não resistiu ao último mês, “declarou-se-lhe uma anasarca”.

Não resistiu, assim como eu não resisto à falta de correctores, assim escrito, para corrigir gralhas, ‘faltas, pecados e omissões’.



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