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segunda-feira, 17 de março de 2025

As ruas do "Monte" - parte IV

 


Rua do Monte Pedral - Começo por recorrer a um excerto de uma licença de 1866, para salientar a importância do Monte Pedral, no fornecimento de pedra para as construções na cidade. O requerente bem não queria tirar a licença, para acabar o muro[sendo-lhe preciso acarretar mais alguns carros de pedra do Monte Pedral, só na ocasião em que o pedreiro alevantar ou descarregar a pouca pedra à beira do muro, não embaraça nada nem o trilho dos carros, nem a gente, mas como não hé permitido descarregar pedra alguma no caminho público sem licença ...].

Muita pedra saiu deste monte para obras públicas e particulares. Germano Silva tem sempre boas histórias para contar e no seu livro “Passeios pelo Porto de Outros Tempos”, conta-nos o seguinte, a propósito do transporte da pedra em carros de bois. Estava em construção o Hospital de Santo António: “…decorria o ano de 1852. Os empreiteiros iam buscar a pedra às ricas pedreiras do monte Pedral. Um dia havia para transportar um bloco de proporções fora do vulgar. Era de tal envergadura que, tendo sido cortada e carregada num dia, só ao fim da tarde do dia seguinte chegou ao seu destino. E para o transporte foi utilizado um carro especial com quatro rodas puxado por nove juntas de bois.”

O monte foi aberto para dar continuação à rua da Constituição, construída em várias fases, projectada em 1870, só em 1890 passaria o Monte Pedral, a parte mais trabalhosa e a que demorou mais anos.

A actual Rua do Monte Pedral liga a Rua da Constituição à Rua Damião de Góis, e tem na sua vizinhança mais dois topónimos ligados a montes – a do Monte do Cativo, paralela, ligando as mesmas ruas e a Travessa do Monte Louro, que foi despromovida, porque já li documentos sobre a Rua Nova do Monte Louro. Se descêssemos até ao Carvalhido ainda ficaríamos em terrenos do Monte de S. Paulo, esse completamente desaparecido da toponímia ou dos mapas mais recentes.

Quanto ao Monte Pedral, se recuarmos uns séculos, em 1732, era mais Perral (de “perros”, de cães) – talvez porque ainda não lhe tivessem descoberto os pedregulhos. A verdade é que mais tarde teve lá um cemitério de cães. 

Alguns registos curiosos sobre este topónimo anterior:

1706 – “… o campo da Cavada e uma bouça junto dele, o “monte Perral” ao pé da Falperra, eram pertença do Casal do Ribeiro”.
1715 – referências “…a terras do Monte Carvo, no Monte Perral, no Monte Corvo e no Monte Louro,” estes dois últimos ficavam perto um do outro.
1732 – registam-se “… terras saídas do Cal Ribeiro. Junto ao Monte Perral, que por volta de 1860 se localizava no seguimento da rua das Valas para o Bom Sucesso”.

Numa planta de 1839, podemos verificar os acidentes orográficos ainda existentes à volta do principal - o Monte Pedral. Assim a poente, este tinha o Monte de S. Paulo e a sul, o Monte Cativo. Para norte, além de ruas projectadas em direcção ao Carvalhido, sobressaia o Monte das Regueiras. Ainda existiria o “Monte Santo” por onde ficaria o Reduto das Medalhas. Ainda não encontrei marcações do Carvo ou Corvo e do Louro.

Abro um parêntesis nos “montes” só para relembrar uma história lida na toponímia de Eugénio Andrea Cunha e Freitas, a propósito da personagem que deu novo nome à Rua Nova do Monte Louro, hoje denominada Rua do Almirante Leote do Rego. Pelos vistos, também andou por essa época um bordão na boca do povo - «Que mais queres tu, ó Daniel?»  Jaime Daniel Leote do Rego, foi militar interventivo na instauração da República e envolveu-se em conflitos militares no ultramar, e talvez por isso a Toponímia o tenha escolhido para figurar ao lado de outras ruas de antigas “províncias ultramarinas”. Voltando à estória, dizem que Leote do Rego era muito vaidoso e tinha a sua pessoa em grande estima. E tal como a madrasta da Branca de Neve, gostava de falar com o espelho, e dizia em voz alta «Tu és elegante, tu és bonito, as mulheres gostam de ti, que mais queres tu, ó Daniel

Embora pertencendo ao Monte Pedral, a Rua do Almirante Leote do Rego tem algo muito visível e algo muito escondido. A visibilidade está no grande muro de granito do Complexo da Piscina da Constituição que tem entrada por esta rua. O que está escondido são as traseiras do Quartel dos Bombeiros Sapadores do Porto, que tendo muito granito na entrada da Constituição escondem muito das suas instalações aqui ao lado desta rua. Mas o que fica mesmo escondidinho, cuja entrada se faz por uma abertura num edifício recente é a Vila Pinto. Trata-se de um bairro de, pelo menos, uma dúzia de casas em fila, nas traseiras do n.º 172, que já figuravam nas fotografias áreas da cidade dos anos 30. Hoje em dia ainda é sua transversal a Travessa do Monte Louro. Quanto à rua “deste monte” foi particular, mas desapareceu da toponímia.

Voltando à rua do Monte Pedral, os serviços sociais “fugiram da rua”. A Unidade de Saúde do Monte Pedral fica na rua Adolfo Coelho. A Associação, a Capela do Monte Pedral e a Igreja Metodista ficam na Rua José Pacheco do Monte, até o quartel do Monte Pedral tem entrada pela rua de Serpa Pinto. E afinal o que ficou na rua do Monte Pedral? Umas casinhas de rés-do-chão, algumas com cara lavada e pouco mais.

Rua José Pacheco do Monte – É a continuação da Rua do Monte Pedral. Inicialmente era a Rua do Nogueira. Ainda não descobri quem foi o tal “Nogueira”. Sei que o Bispo do Porto, comprou um terreno ao lado da Casa das Religiosas e da Associação das Escolas Jesus, Maria e José e mandou construir aí uma capela, inaugurada na véspera do Natal de 1928. É a actual igreja/capela do Monte Pedral.

Mais ruas “do monte” ainda caberiam neste bosquejo, mas as principais estão por aqui contadas.

terça-feira, 17 de dezembro de 2024

Cemitério de cavalos e burros

Hoje em dia, que tanto se fala nos direitos dos animais, acho que não conheço nenhum cemitério para animais. No entanto, há quase duzentos anos, os edis portuenses já se preocupavam onde dar sepultura aos bichos.

Um título destes hoje estranha-se, mas nos finais do século XIX parece que havia mais do que um cemitério de irracionais. E, em Agramonte, onde hoje estão humanos começaram a enterrar animais por lá.

Não traria este tema para aqui, se não me tivesse deparado com ele em “O Tripeiro” de 1909, 1ª série – ano 2 – pág. 111.

O artigo é intrigante, pois coloca em plena zona nobre da cidade um cemitério de cães, num terreno entre a rua de D. Pedro e a Rua do Laranjal. Estavámos então no que é hoje o coração da Invicta - a Praça da Liberdade. À época era o bairro do Laranjal. Na foto que encontrei no CPF, podemos identificar o Hotel Francfort, mas não nos dizem que foi construído em cima de um cemitério de cães.

 

«A antiga rua de D. Pedro é actualmente parte integrante da Praça da Liberdade. Em 1916 foi demolido o edifício que serviu de Paços do Concelho, a norte da Praça da Liberdade, bem como diversos arruamentos vizinhos — ruas do Laranjal e de D. Pedro. Nesta fotografia pode ver-se o famoso Hotel Francfort demolido por volta de 1917.»

Mas o artigo não fica pela praça. Vem cá acima ao Monte Pedral. Vou transcrever as palavras do artigo com a grafia à moda para não se ficar chocado com os actos:

«No alludido terreno eram esfolados os cães apanhados na rua por trabalhadores da camara. Alguns dos corpos d’aquelles animaes ficaram alli sepultados, outros eram levados para o Monte Pedral.»

Antes de voltar ao monte, quero só abrir um parêntesis, para as minhas memórias da “rede”. Se no artigo estávamos em meados do XIX, eu avanço um século ou mais e vejo os pobres dos cães da minha rua a fugir desalmadamente – Chegara “a rede”. Até no Porto, recordo ter visto um grupo de homens com uma rede enorme que tentavam apanhar os cães vadios e não só. Mesmo um Lulu com lacinho podia ser apanhado. Normalmente conseguiam fugir e as pessoas escondiam-nos em casa. Ríamo-nos das inabilidades dos “caçadores” mas ficávamos com muita pena dos bichinhos que eles levavam, porque diziam que os matavam. Parece que acontecia se não fossem imediatamente procurados e se não pagassem a respectiva multa.

Andava em pesquisas sobre a actual rua da Constituição e descobri que no Monte Pedral, que foi dificilmente rompido para a rua passar, tiveram de desistir de um cemitério para cavalos que já por aí existia em 1858.

Já agora, deixo este verbete de Pinho Leal que confirma que, pelos anos de 1840, em Agramonte começou-se por um cemitério para irracionais, fazendo-se depois uma divisão para os pobres que falecessem no Hospital da Misericórdia. Por fim, transformou-se em cemitério público.

 

23 de Setembro de 1858 – Nota sobre o Cemitério de Cavalos no Porto, no Monte Pedral:

“Lugar onde no Porto, costumam ser enterrados os cavalos e burros”, na última página do jornal “O Diabo a Quatro”, em nota ao poema “Ao charadista de Villa Meã (derriça em rima)”:

Q’rias subir ao Parnaso,
Pobre, orelhudo animal?!
Sai-te p’ra baixo, mesquinho!
Sai, que erraste o caminho,
Subiste ao Monte Pedral!

(Notícia / Nota gentilmente cedida por ADRIANO SILVA – PORTO DESAPARECIDO)

Ali pelos finais da rua Constituição, por onde ficaria o cemitério, em terrenos camarários, foi erguido um dos primeiros Bairros Operários, com risco do famoso arquitecto Marques da Silva, autor de tantas obras emblemáticas na cidade do Porto. Mas isso é uma longa história e fica para uma próxima.