Mostrar mensagens com a etiqueta quintas. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta quintas. Mostrar todas as mensagens

quarta-feira, 7 de maio de 2025

Monte dos Burgos nos anos 20

 

Em 1920, José Vítor de Oliveira, pediu licença para construir um muro de vedação e abrir portal, na rua do Monte dos Burgos, entre os n.ºs 652 e 672. Foi precisamente neste muro que foi aberta a rua Padre Rebelo da Costa. Presumo que este Sr. José Oliveira fosse familiar, provavelmente pai, do Dr. Oliveira, proprietário da quinta aqui na rua, onde 40 anos depois, foi construída a nossa casa.

Antes desta data, ocorreu um temporal na cidade. Mais precisamente em 1918 que provocou estragos aqui pelos vizinhos. Relato as palavras do pedido de licença, pela sua peculiaridade: Domingos da Silva Barros pretende reconstruir um muro de vedação e requer: «…levantar dois pedaços de parede de propianho … que lhe caeu com o temporal no comprimento de 15 a 20 metros por 2 a 2,40 de altura e que não perçisa volir com os alicerçes e sendo para aplicar o mesmo metrial que iziste da mesma parede, esta reconstrução da parede fica desviado da estrada publica 40 a 50 metros e como não posso fazer sem licença da Ex.ª Câmara, Pede Deferimento…”. Pela localização, nº 1024 da Rua do Monte dos Burgos, afastado da via 50 metros, estamos dentro de outro terreno lavradio.

Em 1939, José Pedro pede para construir um muro de vedação de 56 metros por 0,50 de altura e colocar uma rede a de arame n.º 10, por cima do muro, sito ao longo do quintal, no n.º 750 aqui na rua do Monte dos Burgos. Concluo que de Santa Luzia para a Circunvalação havia ainda grandes extensões de rua sem habitações.

Um dono de quinta era Albino Vieira, morador no n.º 746 da Rua de Monte dos Burgos que pretendia, em 1912, «construir um barracão para guardar gallinhas durante a noite», na quinta de que é possuidor nesta rua.

Em vários pedidos de licença para a construção de prédios, solicita-se a demolição de casebres. Pode depreender-se que as casas de lavoura teriam aqui e ali uns casebres que foram perdurando e formando os pequenos aglomerados habitacionais.

Os mestres de obras da época eram pouco versados na ortografia. Mais um exemplo do “pruprietario na Rua do Monte dos Bulgos, 909 desejando fazer obras de 2.ª Categuria pede a devida auturisação. O abaixo assinado Mestre de obras muradôr… durante a obra retru menciunada…”.

Aníbal Crispim Neto, em 1937, pretendia construir um barracão no n.º 628. Ora, anos mais tarde, quando comprámos o primeiro Micra ficamos muito contentes por ter um concessionário da marca ao pé da porta. A Rótor tinha instalações neste barracão, mas era só chaparia – felizmente nunca necessitamos dos seus serviços. Hoje é a Rua da Maria Peregrina de Sousa e tem lá moradias chiques, com quatro tílias nos passeios. 

Pelos interiores destes terrenos lavradios, vamos encontrar os limites de duas ou três quintas – a quinta do Regado, a quinta da Telheira e a quinta do Tronco 


Antes de contar o que sei sobre estas quintas, vou aqui deixar a nota de um meu caderno de anteriores pesquisas que agora não consigo reconstituir. Refiro-me a uma linha de água que viria do manancial de Paranhos  “um rio que atravessa a rua e passa por um grande tanque, estando assinalado também a divisão dos concelhos, frente às terras da Prelada, a que se seguiam os campos do lavrador Cunha a poente, que iam até ao Caminho de Requesende – hoje espaço do antigo parque de campismo.

Afinal o que é vivo, mesmo de 1855, sempre aparece e nestas escrituras pode-se voltar atrás e inserir o material no sítio certo. Cá fica, pois, o documento, com o facto curioso de estar desenhado “o rio” a azul (ampliar a imagem) e a seguir haver um ponto vermelho a marcar a divisão dos concelhos de Porto e Bouças – local da seta.


Para concluir, o "rio" é hoje a ribeira da Granja , que hoje passa encanada por baixo da rua de Monte dos Burgos e deve estar a complicar o futuro complexo da Associação de Futebol do Porto, com obras em curso em terrenos que foram da quinta da Prelada. Deveriam querer aproveitar a água para alimentar os lagos bonitos que aparecem nos painéis publicitários, mas as obras parecem paradas...

Finalmente, lembremo-nos que o tal "tanque" por onde passava o rio na imagem em cima, foi a primeira piscina municipal da cidade do Porto.



segunda-feira, 17 de fevereiro de 2025

A revolta dos aguetos

 


Hoje não está tempo para passeios, pelo que vou voltar aos meus escritos aqui sobre Paranhos, para tentar melhorar alguma coisa e quiçá descobrir mais. Sabemos bem que a maior parte da freguesia (dois terços, pelo menos) pertencia ao Cabido da Sé, que, ao longo dos séculos, foi emprazando as suas terras.

Andei ali às voltas de uma quinta vizinha - a do Tronco e, nos mapas do Arquivo Municipal, encontrei dois lugares com topónimos curiosos - Agueto e Revolta.

Por aqui fechado, vou desta vez vou recorrer à IA, para saber coisas sobre ‘agueto’.

Acho que ”nã agueto mais” e vou voltar ao Marçal para aprender alguma coisa. Referindo-se ao agueto’, recorda-nos que havia vários ‘Aguetos’, além da quinta, havia o campo do Agueto, no Casal da Fonte. Como Horácio Marçal sabe do que fala, vou transcrever-lhe as palavras, para ver se alguma IA vem cá lê-las:

«Agueto – é de supor que o nome por que este lugar é conhecido derive de agueiro – rego onde se juntam as águas das estradas – ou agueira – sulco que conduz as águas de rega ou buraco nos muros por onde passam as águas aproveitáveis para a cultura. Aqui existiu a Quinta do Agueto ou do “Mecha”».

Continuamos a falar de águas e a manancial de Paranhos é a principal culpada pela formação destes aguetos e destas regueiras, que se reflectiram na toponímia. A maior quinta ali pegado era a do Regado, pois a ribeira da Arca d’ Água trazia-lhe o solo sempre regado. A quinta das Regueiras ainda ficava mais próxima da Fonte da Arca.

O Casal da Fonte, já em 1593, tinha os melhores campos de cultivo, que eram precisamente os do Agueto, a deveza da Bouça e a leira da Manga. Este casal tinha «casas telhadas e colmadas, leiras, agras, talhos (porções de terra cultiváveis, compridas e estreitas), palheiros, águas de represa e vários campo de cultivo [… ]».
Pagava ao Cabido da Sé «10 alqueires de trigo e outro alqueire de meado, tudo pela medida velha (quando eu era pequeno, diziam que “levávamos pela medida grande), 4 galinhas e quatrocentos réis em dinheiro». Há documentos, de 1593 a emprazar este casal a Joane Enes e outros de 1712, a partir este casal em dois meios.

Assim, em duas penadas, estou onde quero, rodeado por água e nas minhas sete quintas. Cada dia que passa, mais quintas me aparecem. Aqui abaixo, uma planta de Teodoro de Sousa Maldonado, do fim do século XVIII.

Vou abrir mais um pequeno parêntesis, só para deixar duas palavras sobre este Teodoro de Sousa Maldonado. Conheci, há muito, o nome deste arquitecto, dado terem dado o seu nome a uma rua de Ramalde. Parece que dedicou a vida a desenhar a cidade e um dia destes hei-de dedicar-lhe página inteira.

Voltando à planta do Monte de Além, que aparece identificado no centro da imagem, saliento a Quinta do Corvo (canto esquerdo), situada à face da Estrada de Braga, actual Rua do Amial. Aponta-se também aqui o Casal de Monte Rico que também ficou conhecido como Casal do Amial. No ponto A, em baixo, indica-se o caminho para o Agueto e em cima, a partir do ponto C, o caminho para o lugar da Telheira. Um ponto verde em cima à direita da imagem é assinalado como “o coradouro que deve ficar público”, No ponto Z estão marcadas “as pedreiras e praça que ali devem ficar para uso público”. Já o ponto E está marcado como “o rocio para sahida dos gados e logradouro público”.

Ainda neste Casal do Monte Rico havia os campos do Marco e do Amial, recebendo o do Amial, água da Fonte da Arca. A renda era a seguinte: «trezentos réis em dinheiro, três alqueires de trigo, meio alqueire de pão meado, 4 galinhas; por lutuosa, por falecimento de cada uma das vidas, outro tanto como a renda de um ano e de laudémio das compras, vendas e trocas 4-1 (a quarta parte do preço por que fossem feitas)».

Nesta descrição estão já aclarados alguns conceitos, obscuros em rendas antigas – ‘lutuosa’ e ‘laudémio’, mas a eles voltarei.

Passemos agora à vizinha Quinta da Telheira, que também ficava no “lugar do Aguêto”

António José da Maia e Silva herdou-a de seu pai José Maia e Silva. Era uma propriedade com aproximadamente 16 hectares. Tinha largas culturas de feijão, batata, centeio, castanheiros, árvores de fruto e até vinho verde. Além disso, tinha aviários e touros de reprodução com que concorreu a exposições pecuárias onde arrecadaram muitos prémios.

Desde o Amial até à Igreja de Paranhos, podíamos tentar localizar um número infindável de propriedades rústicas e casas de lavoura de amplo domínio territorial. Horácio Marçal enumera algumas dessas quintas vizinhas. Só alguns exemplos: Quinta da Azenha, Quinta do Outeiro, Quinta do Lampianista, Quinta do Oliveira, Quinta Seca de Currais, Quinta Seca de Covelo. E pronto, só com estas, lá estou outra vez nas minhas 7 quintas.


À data de 1848 era possuidor da Quinta da Telheira, Thomás Alves Guimarães, que nesta data pede licença à Câmara” para continuação de huma mina d’água já principiada, pretende fazer hum ou mais óculos para uma mina de água, no lugar do Aguêto”. Quarenta anos mais tarde, ainda temos o mesmo proprietário desta quinta a pedir licença para abrir umas janelas num prédio.

A minha memória não recorda algumas das edificações recentes da zona da Telheira e infelizmente as pesquisas são difíceis. Ninguém conta nada sobre nada. Por exemplo, quando abriu o Hotel Boega, depois Beta e agora Belver Beta Hotel, na esquina da Rua do Amial com a rua da Telheira? Não sei, sei que hoje está fechado um hotel de 4 estrelas de cento e muitos quartos, que foi à falência em tempos que os hotéis nascem na cidade como cogumelos. Recordo que os meus filhos, quando andavam na primária no Luso Francês, iam fazer natação na piscina deste hotel. Deve datar, pois dos finais de 80, inícios de 90.

Já o topónimo “Revolta”, encontra-se na freguesia vizinha de S. Mamede de Infesta (venda de um pedaço de devesa) e no nome de uma quinta em Campanhã.

E dá muita “revolta” a pouca informação que encontrei sobre este lugar.

Post Scriptum:

Tanta "água meti" que esqueci as alpondras. Diz Marçal sobre a Rua Nova do Tronco, que ia da Capela à Telheira:

«A passagem em dias de chuva, em alguns sítios, tem de ser feita por sobre uma espécie de ALPONDRAS e noutros por um passadouro de pedra em sítio mais elevado, que felizmente ainda existe para uso das raras pessoas que se aventuram a fazer tão arriscada travessia.»